quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

SER IGREJA

SER IGREJA

Fazer parte da igreja de Jesus Cristo é um privilégio abençoado, mas atualmente negligenciado por muitos crentes. Infelizmente vivemos uma época em que as igrejas sofrem com uma rotatividade terrível e danosa. Por quê? Porque esse é o espírito dessa época, o que Zygmunt Bauman (1925-), sociólogo polonês chama de “modernidade líquida”. Esse autor chega a dizer: “Os laços inter-humanos, que antes teciam uma rede de segurança digna de um amplo e contínuo investimento de tempo e esforço, e valiam o sacrifício de interesses individuais imediatos [...] se tornam cada vez mais frágeis e reconhecidamente temporários” (2007, p.8,9).
O grande problema é que as pessoas não sabem mais o que são nem na sociedade nem na família e muito menos na igreja. Hoje em dia ser parte da igreja tornou-se sinônimo de “frequentador”, “amigo do evangelho”, “espectador” ou qualquer outra coisa. As pessoas não querem mais saber sobre o que é certo ou errado, o que é heresia ou doutrina ortodoxa, quem de fato fala a verdade de Cristo e quem apenas usa o Nome como meio de “ganhar a vida e ascender socialmente”. A verdade é dura, mas é isso mesmo. Negligência, superficialidade, modismo e uma espiritualidade sólida como “prego na areia”.
O pior é quando os crentes querem espiritualizar suas “andanças”, quando falam que “sentiram de Deus” que deveriam mudar de igreja. Sabe o que mais causa estranhamento? Eu nunca sinto isso, apesar das dificuldades da igreja. Aliás, a igreja tem um formato único no mundo, pois ela é uma instituição divina e humana ao mesmo tempo. Divina porque nasceu no coração de Deus e visa ser a nova sociedade restaurada em Cristo, mas humana, miseravelmente humana com seus pecados e atropelos. No entanto, eu amo a igreja e vejo que vale a pena dedicar-se para o fortalecimento dela por um simples fato: “[...] Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Efésios 5:25). Ora, se meu Senhor fez isso, por que eu não posso seguir Seu exemplo?
Alguns me dirão: “Mas não importa a denominação, pois posso servir a Cristo em qualquer lugar”. Bem, essa é uma falácia perigosa, pois servir a Cristo implica em levar Seu compromisso com Cristo até o fim. Quem vai derrubar as barreiras denominacionais não seremos nós, mas o Dono da Igreja: “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco. É necessário que eu também as conduza. Elas ouvirão a minha voz; e haverá um rebanho e um pastor” (João 10:16). Quem separará o trigo do joio é o mesmo Senhor do Universo e da seara (Mateus 13:29,30). As denominações existem por causa da nossa humanidade; no entanto, existem na maioria delas uma conexão com os princípios fundamentais da fé: Somente a Escritura, Somente a fé em Cristo, Somente a graça de Cristo, Somente Cristo, Somente a glória de Deus.
E nesse aspecto a denominação importa sim. Como alguém pode ser membro de uma igreja em que seu líder se autointitula “apóstolo”? Como fazer parte de uma comunidade onde a Bíblia não é a base de regra de fé e conduta, mas é apenas manipulada para favorecer posições e interpretações esdrúxulas? Como fazer parte de uma igreja onde Cristo e sua obra na cruz não são suficientes, mas onde as pessoas usam artifícios de uma “psicologia barata” para “quebrar maldições hereditárias”? Como fazer parte de uma igreja onde é proclamado “glória a Deus”, mas na verdade tudo gira em torno da glória humana?
Ser igreja é mais que frequentar um templo, ouvir a mensagem, dar o dízimo e ir embora com “a bênção”. Ser igreja tem a ver com três compromissos fundamentais. O primeiro é o compromisso com Jesus Cristo, o Cabeça da Igreja. Se não compreendermos quem é Jesus e Sua obra na cruz então ser da igreja será apenas uma questão numérica. O Senhor não deseja que façamos número, mas que tenhamos com Ele uma comunhão profunda e piedosa, onde buscamos a cada dia conhecê-lO mais até “[...] que Cristo habite pela fé em vosso coração, a fim de que, arraigados e fundamentados em amor” (Efésios 3:17).
O segundo compromisso é com a doutrina de Cristo. Não basta apenas crer; é necessário saber o que se crê. Alguns creem, mas estão sinceramente enganados. Não basta ter a Bíblia, é necessário conhecê-la e desfrutar de cada ensinamento que ela nos traz. Não tenho receio de dizer que a grande maioria dos crentes hoje em dia são verdadeiros “analfabetos bíblicos e doutrinários”. Paulo orientou o jovem pastor Timóteo: “Tem cuidado de ti mesmo e do teu ensino; persevera nessas coisas. Dessa forma, salvarás tanto a ti mesmo como os que te ouvem” (1Timóteo 4:16).
E o terceiro compromisso é com a comunidade de fé. Essa comunidade é feita de pessoas, algumas fáceis e outras difíceis, algumas simples e simpáticas, outros já soberbos e metidos. Se alguém duvida que tenhamos todos os tipos de pessoas na igreja basta ver a composição dos discípulos que Jesus chamou. A igreja não é feita de pessoas perfeitas, mas de pessoas que foram alcançadas pela graça de Cristo e que necessitam de relacionamentos saudáveis e firmes para crescer. O compromisso com meu irmão em Cristo implica em amar, perdoar, ter paciência, submeter-se, suportar, agir com mansidão, admoestar, exortar, enfim, ser igreja implica numa integração que tem um custo.
Portanto, sigamos a orientação do autor de Hebreus: “Pensemos em como nos estimular uns aos outros ao amor e às boas obras, não abandonemos a prática de nos reunir, como é costume de alguns, mas, pelo contrário, animemo-nos uns aos outros, quanto mais vedes que o Dia se aproxima” (Hebreus 10:24,25). Seja firme e permaneça na Igreja onde Deus lhe colocou, buscando amar a Cristo, Sua doutrina e os irmãos.

Fraternalmente em Cristo, Pr. Gilson Jr.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

ANO NOVO... NOVO TEMPO PARA A IGREJA

ANO NOVO... NOVO TEMPO PARA A IGREJA

Sempre que um novo ano chega são renovadas as esperanças e as perspectivas em todas as dimensões da existência. Depois de um ano difícil temos agora um ano com muitas perspectivas de mudanças em nossa igreja. Muitos membros estão com dúvidas sobre esse momento e por isso creio que será de grande importância trazer algumas orientações.
Primeiramente, vale a pena salientar que numa igreja Batista a Assembleia é soberana. Nosso estatuto diz claramente:
Artigo 3º. – A Igreja é soberana em suas decisões, não se subordinando a qualquer congênere ou entidade religiosa, respeitando as leis do país e reconhecendo a Jesus Cristo como seu Senhor e Suprema Autoridade.
§ - Adota a Bíblia Sagrada como sua única regra de fé e prática, aceitando a interpretação contida na Declaração Doutrinaria da Convenção Batista Brasileira.
Portanto, fica claro que iremos seguir os ditames bíblicos, deixando a decisão para a Assembleia dos membros da Igreja na escolha do seu novo pastor. Ainda segundo o Artigo 34 de nosso Estatuto, será a Assembleia Geral quem decidirá o novo pastor; sendo assim não será algo imposto sem que os membros sejam ouvidos. A Comissão de Sucessão Pastoral entrará em contato com os membros antes que seja levado algo à assembleia.
E qual a função da Comissão de Sucessão Pastoral?  Essa comissão tem como objetivo: a) Mobilizar a igreja para a oração em favor da escolha do novo pastor; b) Recolher indicações de nomes da forma mais democrática possível; c) Sugerir um perfil do pastor a ser escolhido. Este perfil pode ser apresentado à igreja para votação; d) Escolher um único nome que será levado à assembleia geral da igreja; e) Se o nome indicado pela comissão for aceito pela igreja, o pastor será convidado a passar alguns dias pregando e convivendo com a igreja. Então haverá uma assembleia extraordinária para decidir se o pastor será ou não convidado. Se o for e aceitar, o trabalho da comissão estará encerrado. Se o nome indicado não for convidado ou se não aceitar o convite, a comissão retoma os trabalhos para indicar um novo nome dentre os nomes já sugeridos pelos membros da igreja, podendo abrir espaço para receber novas indicações. É importante salientar que todo o processo é espiritual, aberto, democrático e visa alcançar o bem-estar da igreja. O pastor está como consultor da Comissão, indicando nomes e orando com os irmãos.
Por isso precisamos orar e nos envolver nesse processo como igreja de Cristo. Agora não é hora de ficar preocupado ou desanimado, mas é tempo de oração, pois o SENHOR prometeu: “e vos darei pastores segundo o meu coração, que vos guiarão com conhecimento e discernimento” (Jeremias 3:15). Como o Senhor nos dará um pastor segundo seu coração se não orarmos? A oração é fundamental para que ouçamos a voz do Senhor e tenhamos um novo pastor segundo o coração de Deus.
No entanto, também é importante destacar alguns aspectos importantes desse processo. Nesses últimos quinze anos à frente do rebanho eu trabalhei muito com o ensino e ministração da Palavra de Deus. Foram anos de grande investimento espiritual e fortalecimento doutrinário e expansão da visão de uma igreja mais voltada para uma comunidade que exerce diferença no mundo. Creio que agora é um tempo de mais pastoreio e tenho orado pela igreja para que esse tempo de expectativa e ansiedade natural seja guiada pelo Espírito Santo com amor.
A Palavra de Deus deixa claro que “[...] ele designou uns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, e ainda outros como pastores e mestres, tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos para a obra do ministério e para a edificação do corpo de Cristo” (Efésios 4:11,12). O ministério pastoral faz parte de um dom espiritual e por isso devemos orar ainda mais para que Deus – Aquele que mais se preocupa com Sua Igreja – dirija-nos nesse momento.
Enquanto isso, permaneceremos com os irmãos até a nossa ida ao campo missionário, com a mesma motivação e amor pela Igreja do Senhor que se reúne nesse lugar. Espero contar com o envolvimento e engajamento de todos os membros da Igreja Batista do Estoril, olhando essa comunidade como pertencente ao Senhor Jesus, a quem devemos honrar e glorificar. Certamente o Senhor Jesus, o Supremo Pastor da Igreja (cf. 1Pedro 5:4) nos guiará vitoriosamente nesse ano.

Feliz Ano Novo, para a glória de Deus!
Fraternalmente em Cristo, Pr. Gilson Jr.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

ENTRE A MÃO PESADA DE DEUS E A ESPERANÇA

ENTRE A MÃO PESADA DE DEUS E A ESPERANÇA

O ano de 2015 começou com todas as dúvidas e incertezas que já eram previstas no final do ano passado, principalmente depois das eleições mais polarizadas que tivemos em nosso país. E assim, durante todo o ano vimos à degradação moral, ética, política, econômica e social em nosso querido Brasil; todos foram afetados, direta ou indiretamente pela crise criada nos anos anteriores e chegamos ao fim do ano sem muitas expectativas positivas para os anos que virão. O que fazer quando as notícias não são boas e temos diante de nós expectativas obscuras?
Olhando as Escrituras vejo em nosso país a mão pesada de Deus contra a nação e contra Seu povo também. O pecado da nação não está apenas na corrupção em Brasília, nos “petrolões” que nos assustam e nos indignam todos os dias na operação Lava-jato. O pecado da nação também pode ser visto nos templos e no meio daqueles que se proclamam evangélicos, mas não vivem segundo o Evangelho de Jesus Cristo. O pecado da nação não está apenas na estrutura viciada dos partidos políticos e do sistema corrompido que envolve o poder; o pecado da nação está na falta de coerência daqueles que se chamam “cristãos” e vivem como ateus práticos durante a semana. Sim, o pecado da nação começa entre aqueles que, ao invés de cuidarem do rebanho de Deus e pregar com verdade a Palavra bendita, arrogam para si títulos e dominam seus “impérios”, criando “ministérios” que na verdade apenas proclamam seus nomes e não o Nome bendito de Cristo. O pecado da nação está entre os falsos-apóstolos, entre os bispos e pastores que pregam o consumismo e geram crentes medíocres, shows ao invés de culto, tietes ao invés de adoradores, orgulhosos ao invés de servos.
Sim, a mão de Deus pesa sobre a nação e sobre a igreja também! Olhando o livro de Oséias tive a sensação de que passamos exatamente algo semelhante. Deus fala: “Israelitas, ouvi a palavra do SENHOR; pois o SENHOR tem uma acusação contra os habitantes da terra; porque não há verdade, nem bondade, nem conhecimento de Deus na terra. Só prevalecem maldição, mentira, assassinato, furto e adultério; há violências e homicídios sobre homicídios. Por isso a terra se lamenta, e todos os seus habitantes desfalecem, juntamente com os animais do campo e com as aves do céu, e até os peixes do mar morrem” (Oséias 4:1-3). Essa é uma visão geral do problema da nação e a descrição cabe bem à nossa situação. No entanto, o problema maior da nação de Israel não era a corrupção generalizada, a falta de conhecimento de Deus, a violência, os problemas ecológicos derivados da seca e de desastres. Tudo isso era consequência de algo mais profundo.
Deus diz: “Entretanto, que ninguém venha a contender e que ninguém repreenda; pois a minha contenda é contigo, ó sacerdote. Por isso tropeçarás de dia, e o profeta tropeçará contigo de noite; e eu destruirei a tua mãe. O meu povo está sendo destruído porque lhe falta conhecimento. Porque rejeitaste o conhecimento, eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, eu me esquecerei de teus filhos” (4:4-6). O povo era culpado de seus erros e pecados, mas tudo que acontecia na época do profeta era consequência de uma liderança espiritual desleixada e preocupada consigo mesma. Deus acusa o sacerdote e o profeta pela falta de conhecimento de Deus entre o povo. Se lermos o restante do capítulo vamos ver Deus os acusando de se alimentarem dos pecados do povo (4:7,8), de observarem a prostituição e a idolatria da nação e cooperarem para a degeneração (4:9-19). O fato de os evangélicos representarem 25% da população não significa nada, pois os mesmos pecados que acusamos são frequentes na “cultura gospel e evangélica” de nosso país. O evangelicalismo brasileiro é sincrético, místico, capitalista e medíocre, baseado no que há de pior da religião, nutrindo uma cultura de ignorância e distanciamento bíblico.
Há esperança? Sim, há esperança. O mesmo Oséias que prega de forma vívida por meio de um relacionamento estremecido por causa de um adultério, numa clara alusão do adultério espiritual de Israel em relação a Deus, nos traz esperança. Em todo o livro, ao mesmo tempo em que o profeta clama contra os pecados da nação, seus olhos estão na redenção futura: “Depois os israelitas voltarão e buscarão o SENHOR, seu Deus, e Davi, seu rei; e, nos últimos dias, tremendo, eles se aproximarão do SENHOR e da sua bondade” (3:5); “Vinde e voltemos para o SENHOR, porque ele nos despedaçou, mas haverá de nos curar; ele nos feriu, mas cuidará das feridas. Depois de dois dias, ele nos revivificará; no terceiro dia nos levantará, e viveremos diante dele. Conheçamos e prossigamos em conhecer o SENHOR; como o sol nascente, a sua vinda é certa; ele virá a nós como a chuva, como a primeira chuva que rega a terra” (6:1-3).
Chegamos ao fim de ano e certamente não foi um ano fácil. Escândalos, pecados, problemas e situações que podem muitas vezes tirar a nossa esperança. No entanto, se somos de fato o povo de Deus devemos olhar além de nós mesmos e ver o que Ele deseja com tudo isso. Somos chamados a viver segundo a Palavra de Deus, chamados a viver segundo Seus princípios no meio de um mundo corrompido e em trevas. Isso não significa uma vida fácil nem tranquila, mas temos a esperança que não pode ser destruída por nenhum tipo de crise ou circunstância adversa. Como nos diz o profeta no final de seu livro: “Quem é sábio para entender essas coisas? E prudente, para compreendê-las? Pois os caminhos do SENHOR são retos e os justos andarão por eles; mas os transgressores neles cairão” (14:9). Quem é sábio e prudente? Aquele que teme ao Senhor, que faz Dele sua força e segurança. E apesar de todas as adversidades, os santos do Senhor caminham seguros, pois os caminhos de Deus são retos. Portanto, vivamos a cada dia mais dependendo do Senhor, refletindo Sua glória e o Evangelho gracioso, pois mesmo que a situação piore e a mão de Deus continue pesando no ano que entra, Ele mesmo cuidará dos Seus.

Fraternalmente em Cristo, Pr. Gilson Jr.

A FÉ NÃO É BURRA!

A FÉ NÃO É BURRA!

Cada dia que se passa vemos que a igreja brasileira está mais doente, principalmente com a parafernália criada para atrair pessoas em nome de Cristo. A verdade é que a grande maioria das igrejas evangélicas está mais preocupada em criar meios e formas para “crescer a qualquer custo”, buscando táticas empresariais, métodos humanos e visando muitas vezes o lucro e a sustentação de uma hierarquia eclesiástica. Por exemplo, a Igreja Universal (IURD) que se autodenomina uma igreja evangélica, está promovendo a oração pelos mortos, uma doutrina católica, totalmente equivocada e sem base escriturística. Há grupos que falam de “ativação da unção do Espírito Santo”, como se o Espírito fosse um chip de celular. Haja paciência!
O apóstolo Paulo, esse sim inspirado pelo Espírito Santo, disse: “Mas rejeita as fábulas profanas e insensatas. Exercita-te na piedade” (1Timóteo 4:7). Depois ele adverte ao jovem Timóteo: “Porque chegará o tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, desejando muito ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo seus próprios desejos; e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão para as fábulas” (2Timóteo 4:3,4). Ao pastor Tito o apóstolo disse: “[...] Portanto, repreende-os severamente, para que tenham uma fé sadia, não dando ouvidos a fábulas judaicas, nem a mandamentos de homens que se desviam da verdade” (Tito 1:13,14). E o apóstolo Pedro coloca de forma clara a quem devemos seguir: “Porque não seguimos fábulas engenhosas quando vos fizemos conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, pois fomos testemunhas oculares da sua majestade” (2Pedro 1:16).
Ou seja, a Bíblia coloca de forma clara que a fé verdadeira não é burra, nem tola, mas é fruto de um relacionamento verdadeiro com Cristo e fundamentado na Escritura Sagrada. O problema é que a maioria daqueles que se dizem cristãos hoje em dia querem uma religião pirotécnica, com sinais e prodígios, com símbolos e mandingas para favorecer uma ideia totalmente mística. John Stott (1921-2011) disse certa vez: “É surpreendente o número de pessoas que supõe que a fé e a razão são incompatíveis. Mas estas jamais foram postas em oposição uma à outra nas Escrituras. Fé e visão são contrastadas (2Co 5.7), mas não fé e razão. Pois fé, de acordo com as Escrituras, não é nem credulidade, nem superstição, nem ‘uma crença ilógica na ocorrência do improvável’, mas uma confiança calma e refletida em Deus que, conforme se sabe, é confiável” (STOTT, 1992, p. 116).
E aqui temos o calcanhar de Aquiles dos evangélicos brasileiros. Fé tornou-se sinônimo de superstição, algo fantasioso, que precisa ser sentido e definido pelo poder dos “superapóstolos”, dos “ungidos de plantão”. Infelizmente a fé evangélica tupiniquim tornou-se a verborragia religiosa com ares de um espiritualismo doentio, que leva milhares de pessoas a buscarem nas “campanhas” e nos “votos” as respostas de seus anseios pessoais. A fé evangélica atual é permeada por interesses econômicos, onde somente uma “casta superior”, de forma quase gnóstica, se relaciona com um deus manipulável. A verdade é que isso não é Evangelho de Jesus Cristo.
Precisamos compreender que a essência do Evangelho. Paulo vai afirmar: “Examinai a vós mesmos, para ver se estais na fé. Provai a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? A não ser que já estejais reprovados” (2Coríntios 13:5). Por que Paulo solicita um exame cuidadoso dos crentes de Corinto? Porque alguns não estavam em Cristo, apesar de estarem na igreja. O verdadeiro Evangelho glorifica a Jesus Cristo e exalta Seu senhorio e soberania. Como bem disse John MacArthur: “Os cristãos contemporâneos têm sido condicionados a crer que, por terem repetido uma oração, assinado um cartão de decisão, ido à frente, falado em línguas, sido arrebatados em espírito, tido algum tipo de experiência, estão salvos e jamais deveriam questionar a sua salvação” (2008, p. 27).
Sim queridos, a fé não é burra, inconstante e nem fantasiosa. Ela não é motivada pelo marketing de cantores e pregadores, muito menos direcionado por visões ou manifestações aparentemente espirituais. A fé é fruto de um relacionamento pessoa com Jesus Cristo, que nasce da total submissão ao senhorio de Cristo e vive com uma única preocupação: a glória de Deus. A fé é bíblica, fundamentada nas Escrituras e desenvolvida na doutrina; a fé é sóbria, justa e piedosa (1Timóteo 4:5; Tito 2:12,13), que não se preocupa com os ideais de “sucesso humano”, mas com a fidelidade a Deus.
Portanto, meus amados irmãos, fujamos da falsidade, da “fé manipulável”, da “fé gospel”, da “fé comercial” e burra, que leva milhares para longe de Deus. Voltemos nossos olhos à cruz de Cristo, à Sua pessoa bendita, à Palavra de Deus e ao firme fundamento da doutrina cristã.

Abraços fraternos, Pr. Gilson Jr.

MACARTHUR, John. O evangelho segundo Jesus. São José dos Campos: Editora Fiel, 2008.
_____. Com vergonha do evangelho – Quando a igreja se torna como o mundo. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010.
STOTT, John. The contemporany chrstian. Leicester and Downers Grove, 1992.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

A NOVIDADE ANTIGA

A NOVIDADE ANTIGA.

É triste ver a condição do cristianismo atual, pois em sua grande maioria os chamados crentes estão à busca de novidades. Essa, aliás, é a tendência do ser humano, como nos diz Lucas ao relatar a atitude dos atenienses e estrangeiros: “Todos os atenienses, como também os estrangeiros que ali residiam, não tinham outro interesse a não ser contar ou ouvir a última novidade” (Atos 17:21). Que incrível! Literalmente Lucas diz que eles não tinham outro interesse senão falar e ouvir “[...] algo mais novo do que qualquer outra coisa que eles já tivessem ouvido”.
Como disse o inesquecível Sérgio Pimenta (1983): “Toda novidade que vem do vento/ ao peso da força na rotina cai/ na monotonia do pensamento/ que em busca de outra novidade sai”. Sim, o povo evangélico está à busca de contar e ouvir a próxima novidade, não importa se é uma heresia ou não. Vivemos um momento em que as pessoas querem sensações que as façam extrapolar, coisas impressionantes e que empolgam a mente humana. A grande questão é: Será que isso é válido? Até que ponto o evangelicalismo atual não caminha para uma grande desilusão espiritual?
Nesses últimos dias, lendo o profeta Jeremias, percebi que vivemos dias não muito diferentes daqueles vivido pelo profeta. No livro de Lamentações ele deixa claro uma das razões que causou a destruição de Jerusalém e o exílio de Judá: “Os teus profetas te anunciaram visões falsas e insensatas e não denunciaram o teu pecado para evitar o teu cativeiro; mas anunciaram profecias inúteis e palavras que te levaram ao exílio” (Lamentações 2:14). Exatamente isso que vemos hoje em dia, visões falsas e insensatas, ilusões, profecias inúteis que apenas massageiam o ego dos supostos adoradores de Deus. Por que “supostos adoradores”? Porque tudo é feito em nome de Deus, mas na verdade nada é feito para a glória Dele. Nesse caso, Deus não tem nada a ver com as ações humanas, pois como Ele mesmo disse: “Eu sou o SENHOR; este é o meu nome. Não darei a minha glória a outro [...]” (Isaías 42:8).
A expressão religiosa é algo natural do ser humano, mas na grande maioria das vezes não passa de uma cortina de fumaça, uma ilusão que a mente cria a um suposto “deus” criado em nossa mente finita e na qual pensamos controlar. A cultura evangélica brasileira, infelizmente, está à busca de novidades, não importam quais e nem de onde venham. Os templos lotados, os shows e as luzes no palco, os testemunhos de “pessoas ungidas”, tudo hoje gira em torno da pretensa propagação do Evangelho, quando na verdade a glória é humana. A verdade, no entanto, é mais dura e por isso pouco propagada: nunca vi um cristão fiel e verdadeiro ser forjado em encontros de show evangélico ou ambientes parecidos.
O cristão verdadeiro é forjado pela Palavra de Deus, através de uma vida justa, sóbria e piedosa (Tito 2:12). Esse cristão não busca novidades, nem outras “revelações”, pois a novidade do cristão é antiga e completa, já revelada nas Escrituras e que não precisa ser reciclada nem recauchutada. O cristão não olha para outro lugar, a não ser na linha de chegada onde seu Senhor o espera com a coroa da vida (cf. Hebreus 12:1,2; Apocalipse 2:10). Ele corre a corrida proposta por seu Senhor, pois entende que o discipulado implica em seguir os mesmos passos do Mestre (cf. 1Pedro 2:21). A luz que esse cristão deseja ver não é outra senão a glória de seu Senhor, e não o brilho desse mundo. A música que deseja ouvir glorifica Aquele que morreu e ressuscitou e que vive à direita do Pai. Enfim, não há nada de novo na novidade cristã, pois Jesus Cristo é sempre o assunto predileto do cristão.
Sim, o cristão não está à busca de profecias inúteis, mas da palavra profética da Escritura, a Palavra que alimenta verdadeiramente (cf. João 6:27). O cristão tem Cristo e Ele já basta. Como disse Sérgio Pimenta (1983): “Cristo é tudo para todo tempo/ quem Nele se encontra não procura mais”. Como nos diz Paulo: “[...] a realidade é Cristo” (Colossenses 2:17). Portanto, amado cristão, não se iluda com os festivais evangélicos nem com as chamadas “novidades” do mundo gospel. Olhe para Cristo, viva para Ele e busque conhecê-lO mais através da Palavra, porque para quem a realidade é Cristo, nenhuma novidade humana serve mais.

Abraços fraternos, Pr. Gilson Jr.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

UM DEUS TRAÍDO!

UM DEUS TRAÍDO!

Nessa semana um texto de Jeremias (5:1-9) chamou minha atenção, quando Deus diz ao profeta: “Andai pelas ruas de Jerusalém, vede agora, informai-vos e buscai pelas suas praças. Se puderdes encontrar um homem, um só homem que pratique a justiça e busque a verdade, eu perdoarei a cidade” (5:1). É interessante que há uma semelhança muito grande entre o que Deus pede ao profeta para buscar pela cidade de Jerusalém um homem justo e o que fez Diógenes de Sinope (Διογένης ὁ Σινωπεύς; 413-323 a.C.), fundador do Cinismo, quando andava em plena luz do dia com uma lanterna na mão nas ruas de Atenas procurando um homem honesto. Deus ordenou ao profeta que fizesse isso para mostrar o grau de pecaminosidade de Jerusalém.
A questão é que as pessoas em Jerusalém estavam vivendo uma vida profundamente incorreta. É muito interessante que Deus diz que busca alguém “[...] que pratique a justiça e busque a verdade [...]”. Praticar a justiça é agir corretamente com os outros; verdade aqui é ´émûnâ (hn"Wma/), e significa mais que simplesmente a verdade, pois em 5:3 ela é traduzida como “fidelidade” e como “fé” em Habacuque 2:4. Ou seja, os habitantes de Jerusalém viviam de uma forma que confrontava os princípios de Deus. Se o profeta achasse alguém Deus perdoaria a cidade. No entanto, Deus diz: “E ainda que digam: Vive o SENHOR, certamente juram com falsidade” (5:2). Ou seja, a postura deles não era apenas injusta e mentirosa; eles viviam em falsidade diante de Deus, uma vida religiosa apenas de aparências.
Por isso o profeta declara: “Ó SENHOR, por acaso não é a verdade que teus olhos procuram? Tu os feriste, mas não lhes doeu; tu os consumiste, mas se recusaram a receber a correção. Endureceram o rosto mais do que uma rocha e não quiseram se converter” (5:3). Os olhos de Deus procuravam uma postura digna e a visão aqui é de um olhar investigativo da parte do Senhor. Apesar disso o que Deus encontrou foi um povo insensível e duro, incapaz de aceitar a correção e de se converter.
O texto prossegue: “Então eu disse: De fato eles são pobres e insensatos, pois não conhecem o caminho do SENHOR, nem a justiça do seu Deus” (5:4). Para Jeremias os “pobres” são aqueles que não tinham oportunidade para estudar a lei; talvez a questão fosse apenas uma ignorância intelectual, mas essa não era a questão: “Irei aos líderes e falarei com eles, pois conhecem o caminho do SENHOR e a justiça do seu Deus. Mas também eles quebraram o jugo e romperam as cordas” (5:5). Tanto o povo como a liderança do país estava numa situação espiritual calamitosa, de total afastamento de Deus. Quebrar o jugo e romper as cordas expressa uma atitude de rebeldia em relação ao Senhor e mostra que todas as camadas da sociedade estavam corrompidas pelo pecado.
Diante desse quadro Deus determina: “Por isso um leão da floresta os matará, um lobo dos desertos os destruirá, um leopardo ficará à espreita contra suas cidades; todo aquele que delas sair será despedaçado. Porque as suas transgressões são muitas, e a sua rebeldia é grande” (5:6). Na Palestina esses animais selvagens existiam, mas certamente aqui é uma forma figurada para indicar a ação de nações inimigas no território judeu; Deus estava pronto para julgá-los por causa de suas transgressões e rebeldia.
O profeta então diz: “Como poderei perdoar-te? Pois teus filhos me abandonaram e juraram pelos que não são deuses. Depois de eu os haver sustentado, adulteraram e se ajuntaram em bandos nos prostíbulos. Como garanhões bem nutridos, cada um andava relinchando à mulher do seu próximo” (5:7,8). A questão é, de fato, muito séria, a ponto de Deus dizer: “Como poderei perdoar-te?”. O que eles tinham feito ao ponto de Deus fazer essa inquirição?
A questão principal era a infidelidade contra o SENHOR (Yahweh), manifestada numa adoração aos deuses cananeus, principalmente Baal. Deus declara algo bem elucidativo: “[...] Depois de eu os haver sustentado, adulteraram e se ajuntaram em bandos nos prostíbulos”. O Senhor havia sustentado os israelitas, ou literalmente “saciado, satisfeito com comida” ([;BiÛf.a;w"), mas agora eles atribuíam isso a Baal. Por quê? Porque Baal era o deus da guerra e da fertilidade e os judeus, ao invés de glorificarem a Deus pelas bênçãos recebidas, atribuíam isso ao deus cananeu. A adoração cananita estava envolvida por uma forte promiscuidade com seus prostitutos e prostitutas cultuais gerando uma degradação moral profunda. Além disso, a idolatria israelita era comparada ao adultério espiritual.
É profundamente significativo compreender aqui também que Deus se porta como um marido traído. Naquela época os maridos também eram chamados de “baal”, “senhor”. Por isso o profeta Oséias disse cento e vinte anos antes de Jeremias: “Naquele dia, diz o SENHOR, ela me chamará meu marido [yvi_yai; ´îšî]; e não me chamará mais meu Baal [yli([.B;; Ba`lî]. Pois tirarei da sua boca os nomes dos baalins, e ela não mencionará mais esses nomes” (Oséias 2:16,17). Deus não escondeu Sua santa ira por causa da traição de Israel e Judá, bem como a falta de gratidão de Seu povo.
Por isso o texto termina dizendo: “Por acaso não os castigarei por causa dessas coisas, diz o SENHOR, ou não me vingarei de uma nação como esta?” (5:9). Deus não deixaria impune o pecado de Seu povo pelos motivos expostos: Injustiça, falsidade, dureza espiritual, ignorância, rebeldia, ingratidão e adultério espiritual. A pergunta já pressupõe a resposta: “Sim! Deus irá punir o Seu povo, pois foi traído”.
O texto nos chama a uma profunda reflexão quanto nossas atitudes perante o Senhor. Os motivos que levaram Deus a punir Israel e Judá podem ser os mesmo hoje em nossa nação e na Igreja atual. Infelizmente vivemos num país em que a grande maioria professa um Deus que não conhece, não se submete e não O adora, inclusive os chamados “evangélicos”. Não tenho dúvidas que a crise seja um tempo de punição e julgamento sobre a nação, de modo que precisamos orar cada vez mais para que o Senhor cuide daqueles que são Seus em tempos tão difíceis. Uma coisa é certa: “Todavia, o firme fundamento de Deus permanece e tem este selo: O Senhor conhece os seus, e: Aparte-se da injustiça todo aquele que profere o nome do Senhor” (2Timóteo 2:19).

Uma boa semana! Fraternalmente em Cristo, Pr. Gilson Jr.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

ENTRE A SOBERANIA DIVINA E A RESPONSABILIDADE CRISTÃ

ENTRE A SOBERANIA DIVINA E A RESPONSABILIDADE CRISTÃ

Desde o final de 2014 temos presenciado em nosso país uma tensão política, na qual muitos cristãos estão engajados. De fato, razões não faltam, principalmente porque nos últimos anos o país sofreu literalmente um assalto por meio de um partido e de um “projeto criminoso de poder engendrado, concebido e implementado a partir das mais altas instâncias governamentais” (11/10/2012), segundo o decano do Supremo Tribunal Federal, Ministro Celso de Mello. Isso não significa dizer que o partido da presidente da república começou essa ação agora; na verdade, antes disso já havia roubo, corrupção e outras ações perniciosas que sempre destruíram o Estado brasileiro. O problema é que agora a situação passou dos limites.
Diante desse quadro tenebroso temos muitos cristãos que se posicionam de maneiras diversas, às vezes acirrando os ânimos entre os irmãos principalmente se as linhas ideológicas e políticas são diferentes. Diante desses aspectos e da atual conjuntura de nossa nação, temos algumas questões: Como devemos nos portar diante de tudo isso? É lícito criticar o governo e se por contra ele? Até onde caminha a soberana vontade de Deus e a responsabilidade cristã?
O Dr. Wayne Grudem no seu livro “Política segundo a Bíblia” (2014) fala a respeito de cinco visões equivocadas a respeito de cristianismo e governo: 1) O governo deve impor a religião; 2) O governo deve excluir a religião; 3) Todos os governos são perversos e demoníacos; 4) A igreja deve se dedicar ao evangelismo, não à política; e 5) A igreja deve se dedicar à política, não ao evangelismo. Ele declara em seu livro: “[...] os cristãos devem procurar influenciar o governo civil conforme os padrões morais de Deus e conforme os propósitos de Deus para o governo revelados na Bíblia (e devidamente compreendidos)” (GRUDEM, 2014, p. 77).
Nessa questão não podemos impor, nem silenciar, nem se retirar do processo, muito menos pensar que um governo, ideologia ou partido pode salvar uma nação. Precisamos nos comportar como cidadãos do Reino que ainda vivem num sistema caído e que aguardamos com expectativa a chegada do Reino de Deus. Nesse aspecto, devemos sempre lutar contra todas as injustiças, sem perder de vista o controle soberano de Deus. Devemos ser os melhores cidadãos da terra, mas com um único objetivo: revelar a glória de Deus através de nossas ações: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai, que está no céu” (Mateus 5:16).
Muitos irmãos, diante de passagens como Romanos 13:1-7 e 1Pedro 2:13,14, acham errado nos colocarmos contra algum governo. A falta de compreensão dessas passagens faz com que muitos se escondam de uma posição política ou de uma atitude para com algum governo. Se Deus inspirou os apóstolos a escreverem sobre esse assunto, certamente tem como objetivo formar nos cristãos cidadãos responsáveis, mas nunca cidadãos que se curvam a qualquer coisa que esse ou aquele governo faça.
Em Romanos 13:1-7 Paulo mostra claramente que as autoridades exercem poder governamental por ordem de Deus (13:1,2; cf. João 19:11). Os governantes civis “[...] não são motivo de temor para os que fazem o bem, mas sim para os que fazem o mal [...]” (13:3), o que mostra uma das funções do Estado, que é frear o mal com o uso do castigo (cf. Gênesis 9:5,6). Segundo Paulo, as autoridades dão seu “louvor” ou aprovação (Gr. e;painon; epainon) aqueles que fazem o bem (13:3), sendo “[...] serva de Deus para o teu bem” (13:4). Ou seja, o papel do governo e dos seus funcionários é promover o bem geral da sociedade, promovendo e recompensando a boa conduta. No entanto, isso não significa que devemos considerar bom tudo o que os governantes fazem. João Batista repreendeu Herodes pelas maldades que ele tinha praticado (cf. Lucas 3:19), assim como Daniel repreendeu Nabucodonosor, chamando-o ao arrependimento (cf. Daniel 4:27). A punição de que fala Paulo é para os malfeitores e não para quem pratica o que é correto.
O apóstolo Pedro considera o papel do governo de modo semelhante: “Sujeitai-vos a toda autoridade humana por causa do Senhor, seja ao rei, como soberano, seja aos governadores, como por ele enviados para punir os praticantes do mal e honrar os que fazem o bem” (1Pedro 2:13,14). Aqui é muito interessante notar que Pedro fala da sujeição às autoridades humanas, mas não necessariamente ele diz que ela foi instituída por Deus. O papel do cristão é sujeitar-se “por causa do Senhor”. Como cristãos devemos ser os melhores cidadãos de qualquer país, sem no entanto perder o senso crítico do que ocorre, lutando sempre pelo bem e por tudo aquilo que há de melhor no Evangelho.
Embora a Bíblia nos diga que devemos ser sujeitos às autoridades, isso não implica uma obediência cega e inconsequente, principalmente quando essa obediência implique em desobedecer à ordem do próprio Deus. Por exemplo, após a ressurreição, Jesus ordenou aos discípulos que fossem pelo mundo pregando o Evangelho (cf. Mateus 28:19,20). O Sinédrio, que era a autoridade governamental da Judeia prendeu alguns discípulos, ordenando que eles não pregassem o Evangelho (cf. Atos 4:18). No entanto, Pedro e João foram explícitos em sua desobediência civil: “pois não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (Atos 4:20). Noutra ocasião Pedro afirmou: “[...] É mais importante obedecer a Deus que aos homens” (Atos 5:29). Os amigos de Daniel se recusaram adorar a imagem de Nabucodonosor (cf. Daniel 3:13-27), assim como as parteiras hebreias desobedeceram as ordens de faraó para matar os meninos que nascessem (cf. Êxodo 1:17,21). Portanto, a desobediência é sim possível, principalmente quando as ordens governamentais atingem frontalmente uma ordem de Deus.
Quero concluir que para os servos de Deus a vontade soberana de Deus é incontestável. Deus não está escrevendo a história, mas ela está caminhando segundo aquilo que Ele mesmo já determinou: “Sou eu que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; sou eu que digo: O meu conselho subsistirá, e realizarei toda a minha vontade” (Isaías 46:10; cf. Isaías 13-23; Jeremias 46-51; Ezequiel 25-32; Amós 1 e 2; Obadias). Deus é soberano no sentido de que Ele planejou, guia e sustenta a história das nações segundo o Seu querer e propósito visando Sua própria glória.
Ou seja, o cristão deve ser um cidadão responsável, mas não deve perder de vista a ação de Deus. Ele pode protestar e lutar por um país melhor “por causa do Senhor” e não por causa de uma ideologia humana, lutar a partir de princípios elevados escritos nas Sagradas Escrituras e não por uma filosofia ou um partido político. Aguardamos a chegada do Rei, mas isso não implica em imobilismo político e isolamento de pensamento. Todas as vezes que os cristãos se levantaram da maneira correta, essa ação trouxe melhoria às pessoas e a glória de Deus. Grandes mudanças começam com pequenas atitudes; testemunhar de Cristo não implica apenas falar do que Ele fez por nós para a eternidade, mas o que Ele já muda agora. Para o cristão a vida eterna se iniciou no dia de sua conversão e a partir dali seu exemplo tem que brilhar como luz nas trevas.

Uma boa semana! Fraternalmente em Cristo, Pr. Gilson Jr.